domingo, 13 de maio de 2012
Por que os quenianos são os mais velozes ?
Por que os quenianos ganham todas?
Data: 09/05/2012
Muitas são as razões alegadas para a supremacia
queniana nas corridas de rua e maratonas. Mas ainda
assim faltam algumas peças para fechar esse quebra cabeça.
No ano passado, os quenianos venceram todas - todas
- as principais maratonas do mundo. O recorde mundial, então, que até o início
dos anos 2000 se acreditava que duraria muito tempo, foi constantemente podado
ao longo da última década. Em 2011, o melhor tempo não queniano em uma maratona
foi o do brasileiro Marílson dos Santos, com a 21ª melhor marca. A extensão do
domínio queniano nas provas de longa distância fascina público e cientistas, e
é fácil entender porque: uma tribo de pouco mais de 3 milhões de pessoas bate
todo o resto do mundo. O que não é tão fácil compreender é o mecanismo por trás
deste domínio. Uma "explicação" que se ouve constantemente é que os
quenianos precisavam - e alguns ainda precisam - correr vários quilômetros
todos os dias, indo e voltando da escola.
Esta idéia de que o volume de atividade física acumulado durante a infância e
adolescência seja o fator responsável pela dominância queniana nas corridas foi
apresentando em uma série de estudos publicados nos anos 90 por um grupo
escandinavo, que comparou corredores dinamarqueses com corredores quenianos. Um
destes concluiu que "a atividade física durante a infância, combinada com
intenso treinamento durante a adolescência, é que os torna corredores tão
superiores".
Um estudo de 2007 coletou informações demográfica
de mais de 400 corredores de elite queniano e cerca de 90 quenianos não
corredores, utilizados como controle. A pesquisa demonstrou que quanto maior o
grau de sucesso nas corridas, maior a proporção de entrevistados que pertencia
à tribo dos kalenjin, e maior também o número de entrevistados que utilizava a corrida como forma de locomoção para ir
à escola. Mas esta explicação, sozinha, não basta.
Se o sucesso queniano pudesse ser explicado pela
questão de distância da escola, corredores de altíssimo nível estariam
espalhados por todo o continente africano, pois a precariedade de transporte
não é uma exclusividade do Quênia. Na verdade, alguns anos depois do trabalho
inicial, o mesmo grupo escandinavo derrubou a hipótese das idas e vindas para a
escola, mostrando que crianças do Quénia possuem níveis de atividade física
semelhantes a crianças na Dinamarca.
Outro trabalho de um grupo norueguês, realizado em
2006, mostrou não haver diferenças no consumo máximo de oxigênio entre crianças
norueguesas e da Tanzânia. Além disso, diversos estudos retrospectivos que
analisam a carga de treino realizada por atletas de alto
nível de diversos esportes ao longo de suas vidas revelam não haver grande
importância da quantidade de treino feita durante a infância.
MAGREZA E PERNAS LONGAS. Ainda com relação à hipótese de
que a vida rural em altitude tenha levado os quenianos a se tornarem os atletas
que são, existe um trabalho que comparou as características físicas, capacidade
de exercício e o perfil de atividades físicas em adolescentes quenianos que
viviam na zona urbana e na zona rural do país, todos da tribo nandi (kalenjin
foi um nome criado para o povo que falava nandi). Os adolescentes vindos da
zona rural apresentaram um consumo máximo de oxigênio cerca de 10% maior (55,0
contra 50,0 ml/kg/min). Fora isso, ambos os grupos possuíam um IMC baixíssimo,
na casa de 18,5 (para calcular o seu IMC, divida seu peso pelo quadrado da sua
altura; para se ter um IMC de 18,5 é preciso uma combinação como 1,72 m de
altura e 55 kg), e o biotipo típico dos corredores africanos, com pernas longas
e finas.
O tempo gasto em trabalhos no campo e atividades
físicas de lazer também foi maior para os adolescentes que viviam no meio
rural, o que explicaria seu maior consumo máximo de oxigênio. Estes meninos
participaram de um treinamento de 12 semanas, para que se avaliasse o potencial
de resposta ao treinamento de corrida que cada um apresentava. Curiosamente,
tanto os garotos da cidade quanto os da zona rural apresentaram os mesmos
percentuais de melhora, tanto em consumo de oxigênio (VO2Max), economia de
corrida, diminuição da concentração de lactato sanguíneo e outros.
No entanto, como os garotos do interior já
começaram o estudo com uma capacidade física mais elevada, eles mantiveram esta
diferença ao longo de todo o treinamento. Ao final das 12 semanas, os da cidade
correram os 5 km em 20:25, enquanto os outros já o faziam em 18:42. É uma
diferença muito grande em performance, especialmente se considerarmos que
vários dos parâmetros fisiológicos eram virtualmente idênticos entre os grupos.
Os autores do trabalho creditam a diferença em
performance às diferenças em consumo máximo de oxigênio (55,6 e 59,1 ml/kg/min
para os meninos da cidade e do campo, respectivamente, ao final do
treinamento). Uma diferença em VO2 desse porte, cerca de 3.5 ml/kg/min,
equivale ao que é necessário para que se aumente a velocidade de uma esteira em
cerca de 1,0 km/h. Essa é mais ou menos a diferença de velocidade dos 5.000m
entre os dois grupos.
Apesar de os valores de consumo máximo de oxigênio
explicarem as diferenças de performance entre os garotos quenianos com
diferentes estilos de vida, corredores quenianos não possuem um VO2max mais
alto que os europeus, na verdade seus valores podem ser até um pouco mais
baixos. Se a diferença não está na capacidade de consumir oxigênio, uma
velocidade de corrida mais alta deve ser explicada por uma variável.
CORRIDA ECONÔMICA. Na corrida de longa distância,
os três principais determinantes da velocidade são o VO2max, a economia de
corrida e o percentual do VO2max sustentado durante a prova. Entre as duas
últimas, e economia de corrida tem sido apontada como principal diferença entre
corredores africanos e caucasianos (brancos).
Para correr rápido por longas distâncias, não basta
ter a habilidade de consumir grandes quantidades de oxigênio, é preciso também
conseguir convertê-lo em velocidade de deslocamento da forma mais eficiente
possível. Atletas de origem africana possuem uma grande vantagem em relação aos
europeus neste sentido. Via de regra, eles possuem membros inferiores mais
alongados e finos, que pesam menos.
Assim, o custo energético para fazer a reposição
das pernas durante a corrida se torna muito mais baixo para os africanos. Já
foi demonstrado que corredores vindos da Eritréia possuem pernas mais longas,
panturrilhas mais finas e um índice de massa corporal menor quando comparados
com corredores espanhóis. O resultado dessas diferenças é que os africanos
consumiam 12% menos oxigênio que os espanhoís para correr a 21 km/h, o que
implica que eles poderiam correr bem rápido até estarem no mesmo grau de
esforço relativo.
Dados de outros trabalhos corroboram esta idéia,
com valores variando entre 8-12% de melhor economia de corrida para os
africanos. O único problema desta hipótese é que ela se aplica a todos os corredores
que possuem um biótipo parecido com o dos quenianos, e se este fosse o fator
responsável pelo elevado nível de performance dos corredores teríamos uma
disputa muito maior entre atletas de diversas nações africanas.
ALTITUDE NÃO EXPLICA. Outra teria muito popular que
explicaria o fenômeno queniano é o fato de eles viverem e treinarem em
altitude. Mais uma vez, no entanto, as contas não fecham. Os kalenjins vivem
numa altitude de cerca de 2.000m, o que é encontrado em diversas partes do
mundo. Além disso, o principal efeito de se viver em altitude seria uma
capacidade aumentada de transportar e utilizar oxigênio, o que seria mostrado,
por exemplo, com um VO2Maxmais alto, o que não é o caso.
Como já se viu, os quenianos não possuem um VO2max,
ou qualquer outra variável ligada ao sistema cardiovascular, mais alto do que
atletas de outras nacionalidades. É verdade, no entanto, que a atividade de
algumas enzimas ligadas à produção de energia é bem mais alta em quenianos do
que em atletas brancos. Como sempre, no entanto, esta não é uma exclusividade
queniana.
Um trabalho publicado agora em 2012 por um grupo de
italianos, promete aumentar a discussão. Os autores tiveram acesso a uma seleto
grupo de corredores, quenianos da tribo kalenjin e corredores europeus. Os
quenianos possuíam um tempo médio em maratona de 2h07, enquanto os europeus
eram ligeiramente mais lentos. O resultado foi o contrário do que se previa: os
quenianos não apresentaram nenhuma diferença significativa em relação aos
europeus, nem mesmo quanto à sua economia de corrida.
Ambos os grupos possuíam o mesmo consumo máximo de
oxigênio, economia de movimento similar e estavam no mesmo percentual do VO2Max
em seu ponto de limiar anaeróbico, o que levou os autores a crer que a razão
pela qual os quenianos se destacam nas provas de fundo não está relacionada com
a energética de corrida.
MELHOR RESFRIAMENTO. Uma hipótese interessante diz
respeito à termorregulação. Hoje se sabe que cada corredor possui uma
temperatura máxima que seu corpo tolera durante o exercício, que é de cerca de
40°C. O aumento de temperatura corporal depende primariamente da taxa
metabólica, ou da velocidade de corrida, e em segunda instância da capacidade
de perda de calor de cada um. Ou seja, o corpo "cria" calor por um
mecanismo e se desfaz dele por outro, a sudorese.
O resultado dessa equação é a taxa de aumento da
temperatura corporal, que nosso organismo calcula em termos de quanto tempo de
atividade ainda temos, para saber se no ritmo atual iremos
"super-aquecer" ou não. Os corredores africanos, menores e mais
esguios, aquecem menos, e possuem mais facilidade de perda de calor. Pense em
como é mais fácil desmanchar uma barra de gelo fina do que um bloco de gelo
mais compacto, ainda que os dois tenham o mesmo peso absoluto. A razão entre a
superfície de contato com o meio externo e a massa corporal está à favor dos
africanos, o que favorece a perda de calor para o meio e possibilita que eles
corram por mais tempo em altas velocidades do que atletas europeus antes que
seus corpos emitam sinais de alerta, na forma de fadiga.
No final das contas, nenhum fator independente
explica por completo a supremacia queniana nas corridas de fundo. A resposta
deve combinar um pouco de tudo: a altitude, a melhor economia de corrida, a
necessidade de percorrer longas distâncias a pé etc. É preciso lembrar que
qualquer dos fatores fisiológicos ou históricos apresentados como argumento
pode ser encontrado em outros povos, e talvez os kalenjins tenham simplesmente
tido a sorte de reunir todos eles ao mesmo tempo.
Tão importante quanto o resto talvez seja o barulho
que nós fazemos em torno disso. O mundo "branco" está há anos
procurando por uma evidência concreta que explique o domínio queniano, na
crença de que algo singular explique sua vantagem nas corridas, e isso oferece
uma incontestável vantagem psicológica aos quenianos, o que só favorece seu
reinado.
Fonte: Revista Contra o Relógio
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